As portas coloridas da Irlanda: histórias e curiosidades de uma tradição pitoresca...
- luaemp
- 17 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
(Imagem retirada de Salvage Sister & Mister)
Quem nunca se deu ao deleite de, num mero exercício subjectivo, explorar as múltiplas dimensões do que poderá estar, ou ter estado, por trás de uma porta! As vidas que rodaram mil e uma vezes a mesma maçaneta, que se recolheram e se resguardaram do mundo, as que deixaram as portas entreabertas, que com uma aragem se escancararam ou se fecharam para sempre…
As portas são, por si só, um elemento que estimula a curiosidade que nos convida à participação, não só de uma intimidade alheia mas igualmente a múltiplos caminhos da imaginação. E depois há as histórias, as razões, arquitectónicas ou outras, que levam a que as portas sejam desta ou daquela forma, deste ou daquele tamanho, desta ou daquela cor…
Quando passeamos pelas ruas de Dublin ou perambulamos por qualquer uma das charmosas vilas irlandesas, uma das visões mais encantadoras que encontramos são as portas pintadas em cores brilhantes adornando a maioria das casas. Ora pois bem, essas portas coloridas são mais do que um deleite para os olhos; são um reflexo da história e identidade cultural da Irlanda.
São, naturalmente, muitas as teorias e versões para este facto, porém uma das histórias, e talvez a mais popular, por trás das portas coloridas da Irlanda remonta à era vitoriana. Reza a história que quando a Rainha Vitória faleceu em 1901, o governo britânico recomendou que todos os cidadãos pintassem as suas portas de preto em sinal de luto (na realidade o decreto, não fala em portas, mas sim em roupas pretas e bandeiras, em sinal de luto). No entanto, os irlandeses, conhecidos pela sua resiliência e resistência ao domínio britânico, decidiram desafiar essa ordem. Em vez de pintarem as portas de preto, pintaram-nas de cores vivas e brilhantes como um acto de rebelião e uma afirmação de individualidade.
Além deste seu significado histórico, as portas coloridas também tinham um propósito prático. Em cidades como Dublin, muitas das casas georgianas eram arquitectonicamente semelhantes, tornando-se muito fácil distinguir a própria casa da do vizinho — e nem era preciso estar embriagado para isso acontecer. Não riam pois há quem afirme que foram as mulheres que tiveram a ideia, precisamente para que os seus maridos, quando regressassem dos pubs, não acabassem a dormir em cama alheia.
Pintar as portas com cores distintas ajudava, por isso, os residentes a identificar as suas próprias casas facilmente. Esta solução, convenhamos, muito prática e simples, logo se tornou numa tradição amada, acrescentando carácter e charme a todos os bairros.
Paralelamente, todos sabemos que a Irlanda tem uma tradição arraigada nas artes e expressão cultural. Pintar portas em cores vibrantes é uma das muitas maneiras pelas quais os irlandeses mostram essa sua criatividade e personalidade, como se cada porta contasse uma história e contribuísse para o tecido único da comunidade. Não se trata apenas de se destacar; trata-se de celebrar a individualidade e abraçar a alegria da vida.
Essa atitude irreverente do passado faz, nos dias de hoje, com que essas portas coloridas sejam uma parte icónica da paisagem visual da Irlanda, aumentando o apelo estético das cidades e vilas, tornando-as mais pitorescas e atraentes tanto para residentes quanto visitantes. E é ver turistas de todo o mundo a maravilhar-se com esta característica tão encantadora e singular, da arquitectura irlandesa, tirando sucessivas fotos que capturam esta simbiose entre o individual e o colectivo…




Que bom o regresso destas maravilhosas crónicas sobre esse fantástico país!