De corpo para corpo.../ From body to body...
- luaemp
- 27 de jul. de 2025
- 8 min de leitura
(Followed by the English version)

Chega um ponto em que, para um idoso, o levantar-se da cama já não é automático. Em que uma simples ida à casa de banho implica preparação, força, atenção — e uma boa dose de paciência.
Para quem cuida de um idoso com limitações físicas, cada movimento partilhado é um risco, uma dança de equilíbrio, e por vezes um momento de tensão.
Exige treino, não só técnico, mas também emocional. Saber como posicionar os pés, proteger as costas, usar o corpo a favor do movimento — tudo isso se aprende. Mas também se aprende a conter a pressa, a desacelerar os movimentos, a gerir a frustração, a aceitar que nem sempre é possível haver cooperação, por mínima que seja, do outro lado.
Porque, por vezes, o corpo resiste e a vontade desiste — ou vice-versa.
Ajudar alguém a mover-se não é só pegar por baixo do braço e puxar. É conhecer o corpo que se cuida, as dores que já não se dizem, os medos que vêm com cada passo incerto. É também cuidar do nosso corpo — e isso começa por nos sabermos mover com intenção.
Mais do que um simples gesto, cada movimento nasce do centro do corpo, da consciência do que se faz e da escuta do outro e do espaço. É um deslocar-se que respeita ritmos, limites e silêncios, como numa dança ajustada, fluida e presente. Não é força bruta nem pressa — mas corpo inteiro, organizado, disponível. Usa-se o peso, a respiração, o alinhamento, o eixo que sustém, para que cada ajuda seja segura, suave e eficaz.
Cuidar de alguém, sobretudo quando há fragilidade física, exige que o corpo inteiro responda com precisão e consciência. A coluna deve manter-se alinhada e estável, sem torções. Os ombros não se encolhem, não antecipam o esforço — mantêm-se soltos, disponíveis. A respiração acompanha. Os joelhos flectem com propósito, activando as pernas e os glúteos, para que o esforço se concentre onde deve, poupando as costas. Os pés bem assentes no chão, à largura dos ombros e orientados na direcção do movimento. Nada de puxar com os braços ou curvar o tronco. Não se trata de força, mas de economia e afinação. Sempre que possível, é o peso do corpo que conduz — um corpo que sabe como se
mover para não se perder.
Mas mesmo com tudo isso, a realidade nem sempre acompanha o ideal. Infelizmente, não é só entre cuidadores informais —
filhos, cônjuges, netos — que se improvisa. Também entre quem deveria ser profissional, os gestos repetidos e mal calculados acontecem frequentemente: erguer às pressas, puxar braços sem técnica, arrastar corpos. Porque nem sempre se quis ou houve tempo para aprender bem; noutras vezes, a pressa fala mais alto e o cansaço embacia a atenção.
E é tão simples fazer bem… posicionar a cadeira correctamente, usar o movimento biodinâmico e aplicar as técnicas de transferência (cama-cadeira, cadeira-sanita) aprendidas com atenção.
A par disso, as ajudas técnicas não são um luxo: barras de apoio, camas articuladas, andarilhos bem ajustados, cintos de transferência, lençóis deslizantes para mover sem esforço, cadeiras adaptadas ao corpo e ao espaço. Tudo isso pode aliviar quem cuida e quem é cuidado, devolver alguma autonomia e diminuir o risco de acidentes.
E por falar em acidentes, é obrigatório saber preveni-los. E, se muitas vezes basta o senso comum, não é tempo perdido fazer formação na área — até porque, por cá, é mesmo exigida pela HSE (Health Service Executive).
A formação inclui o reconhecimento dos chamados ‘hazards’ (factores de risco presentes no ambiente ou na execução das tarefas) que podem causar lesões: desde pisos escorregadios, tapetes soltos, móveis mal posicionados, pequenos objectos espalhados pelo chão e camas mal ajustadas, passando por posturas incorrectas ou falta de equipamento adequado. Aprendem-se também os princípios do manuseamento seguro, o uso correcto dos apoios disponíveis e as técnicas mais apropriadas para levantar, empurrar ou transferir pessoas com segurança.
É uma formação obrigatória e periódica, com avaliação incluída — porque cuidar bem também se aprende. E porque o corpo de quem cuida merece tanto respeito quanto o corpo de quem é cuidado.
Podem sempre começar pelos cursos disponíveis na plataforma hseland.ie.
Aqui, poderão encontrar inúmeros cursos gratuitos, oficiais e certificados, nomeadamente o curso Manual Handling and Patient Moving and Handling — dividido em componente teórica (online) e prática (presencial), ensina os princípios fundamentais para movimentar pessoas e cargas em segurança. Ou o curso Your Safety, Health and Welfare in Health Care — inteiramente online, aproximadamente 30 minutos, e aborda as responsabilidades legais e os riscos gerais no ambiente de trabalho em saúde — para que ninguém cuide à sorte, e todos se movimentem com segurança.
Esta pode ser uma boa alternativa para quem ainda não fez o QQI (Quality and Qualifications Ireland) Level 5 em qualquer área de saúde, onde, obviamente, o tema faz parte do programa.
Recordo que, a partir de Janeiro de 2026, para se ser cuidador na Irlanda será obrigatório ter, pelo menos, dois — Care Skills e Care of the Older Person — dos oito módulos do QQI.
E sim, acidentes acontecem, mas não é por aceitarmos essa verdade que nos devemos nela acomodar… Até porque, grande parte deles podem ser evitados com o conhecimento e o treino apropriados.
Em nota de rodapé, digo que quando o corpo já se rendeu ao cansaço, já não reage, pode haver a tentação de esquecer que há uma pessoa inteira ali dentro — que já teve vontades, desejos, vergonha, receios, fragilidade. Tal como do lado de quem cuida, pode haver exaustão — física e/ou psicológica. Mas, a ausência da carne que põe em relevo a ossatura completa, os olhos encovados e sem brilho, as úlceras de pressão, os gemidos abafados, não podem servir de desculpa para deixarmos de fazer o nosso trabalho — higiene, posicionamentos, vigilância, companhia — com dignidade, segurança, respeito, num equilíbrio entre o gesto técnico e o toque humano.
English Version
There comes a point when, for an older person, getting out of bed is no longer automatic. When a simple trip to the bathroom requires preparation, strength, focus — and a good dose of patience.
For those caring for an elderly person with physical limitations, each shared movement is a risk, a balancing act, and at times a moment of tension. It takes training, not just technical, but emotional too. Knowing how to position your feet, protect your back, use your body to assist the movement — all of this is learnt. But it is also a learning in how to hold back impatience, to slow down, to manage frustration, to accept that sometimes there won’t be cooperation, not even a little. Because sometimes the body resists and the will gives up — or the other way around.
Helping someone move is not just pulling them up by the arm. It’s knowing the body you care for, the pains that are no longer voiced, the fears that come with every uncertain step. It’s also about taking care of your own body — and that begins with knowing how to move with intention. More than a simple gesture, every movement starts from the centre of the body, from an awareness of what is being done, from listening to the other and the space around. It is a movement that respects rhythms, limits, and silences, like an adjusted, fluid and present dance. It is not brute strength or haste — but the whole body, organised and available. You use weight, breath, alignment, the axis that sustains, so that every helping gesture is safe, gentle and effective.
Caring for someone, especially when physical fragility is involved, demands that the entire body responds with precision and awareness. The spine must remain aligned and stable, without twisting. The shoulders do not hunch or brace for effort — they stay loose and open. The breath accompanies the movement. Knees bend with purpose, activating legs and glutes so that effort is focused where it should be, sparing the back. Feet are firmly grounded, shoulder-width apart, and pointing in the direction of the movement. No pulling with the arms or bending the torso. It is not about force, but about economy and refinement. Whenever possible, it is your own body weight that leads — a body that knows how to move in order not to lose itself.
But even with all of this, reality doesn’t always match the ideal. Unfortunately, it’s not only informal carers — children, spouses, grandchildren — who improvise. Even among those who are supposed to be professionals, rushed and poorly calculated gestures often occur: hurried lifts, pulling arms without technique, dragging bodies. Sometimes it’s because there was never a chance, or time, to learn properly; other times, haste takes over, and tiredness clouds attention.
And yet it is so simple to do things well... positioning the chair correctly, using biodynamic movement and applying transfer techniques (bed to chair, chair to toilet) learned with care.
Alongside this, assistive devices are not a luxury: grab bars, adjustable beds, well-fitted walkers, transfer belts, sliding sheets to reduce effort, chairs adapted to body and space. All of these can ease the burden for both carer and cared-for, restore some autonomy and reduce the risk of accidents.
And speaking of accidents, knowing how to prevent them is essential. And while common sense often goes a long way, time spent on proper training is never wasted — especially considering that, here in Ireland, it is required by the HSE (Health Service Executive).
Training includes recognising the so-called 'hazards' (risk factors in the environment or task execution) that can lead to injury: slippery floors, loose rugs, poorly placed furniture, small objects scattered on the floor, ill-adjusted beds, poor posture, or lack of proper equipment. Training also includes safe handling principles, correct use of supports, and the most appropriate techniques for lifting, pushing or transferring people safely.
It is mandatory, recurrent training, with assessment — because good care can, and must, be learned. And because the body of the carer deserves just as much respect as the body of the person being cared for.
You can always begin with the courses available on the platform hseland.ie. There you’ll find a number of free, official and certified courses, such as the "Manual Handling and Patient Moving and Handling" course — with an online theory component and a face-to-face practical element, it teaches fundamental principles for safely moving people and loads. Or the "Your Safety, Health and Welfare in Health Care" course — entirely online, approximately 30 minutes long, which covers legal responsibilities and general risks in the healthcare environment — so that no one cares by guesswork, and everyone moves with safety.
This may be a good alternative for those who haven’t yet completed the QQI (Quality and Qualifications Ireland) Level 5 in any health-related area, where the topic is, of course, part of the programme.
It’s worth noting that, from January 2026, it will be mandatory to hold at least two — "Care Skills" and "Care of the Older Person" — of the eight QQI modules in order to work as a carer in Ireland.
And yes, accidents happen, but accepting that truth doesn’t mean settling for it. Most accidents can be avoided with the right knowledge and proper training.
As a footnote, I will say: when the body has surrendered to exhaustion, when it no longer reacts, there may be a temptation to forget that there is a whole person inside — one who once had desires, preferences, modesty, fears, and fragility. Just as, on the carer's side, there may be exhaustion — physical and/or psychological. But the absence of flesh that reveals only the bare bones, the hollow and lifeless eyes, the pressure sores, the muffled groans — none of these are an excuse to neglect our duty. Hygiene, positioning, vigilance, presence — all must be carried out with dignity, safety, and respect, in a balance between technical skill and human touch.



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