Nem Graal Nem Cruzada/No Grail, No Crusade
- luaemp
- 11 de jan.
- 10 min de leitura
(Followed by the English version)

(Imagem retirada de World History Encyclopedia)
Fala-se de cruzadas, de cavaleiros e de um cálice perdido — o Santo Graal —, e logo o nome dos Templários se impõe, envolto em mistério e contradição. Foram monges e guerreiros, banqueiros e mártires, heróis e hereges, dependendo de quem conta a história. Os Templários — ou, pelo nome completo, Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão — foram fundados por volta de 1119, em Jerusalém, por Hugues de Payens e um pequeno grupo de cavaleiros. A ordem nasceu com o propósito declarado de proteger os peregrinos cristãos que viajavam à Terra Santa após a Primeira Cruzada.
Com o tempo, os Templários cresceram muito para além dessa função inicial. Fundindo fé, disciplina militar e ambição financeira de forma que poucos poderiam imaginar, tornaram-se monges-guerreiros temidos e respeitados. Ligados diretamente ao Papa, gozavam de uma autonomia considerável perante reis e nobres. Vestiam o famoso manto branco com a cruz vermelha, símbolo de pureza e sacrifício, fazendo votos de pobreza, castidade e obediência. Na prática, porém, a pobreza era apenas pessoal — a ordem em si acumulou imensa riqueza e poder, recebendo doações de terras, castelos, igrejas e dinheiro, tornando-se uma força política e financeira temida em toda a Europa.
Talvez por isso se tenham tornado mestres da administração e das finanças. Muitos historiadores, como William Goetzmann — que aborda o tema em Money Changes Everything: How Finance Made Civilization Possible — observam que os Templários desempenharam funções financeiras avançadas para a época, como fornecimento de empréstimos, cobrança de taxas e manutenção de registros contábeis padronizados. Além disso, ofereciam serviços de transferência de dinheiro à distância: os peregrinos podiam depositar dinheiro numa casa templária e levantá-lo noutra através de cartas de crédito, reduzindo riscos e facilitando viagens seguras — mais ou menos como os levantamentos multibanco. Podemos perceber por que foram considerados precursores do sistema bancário moderno.
Locais como a Temple Church em Londres — o mais famoso — ou Enclos du Temple em Paris eram usados para este tipo de operações financeiras, antecipando práticas que se tornariam comuns apenas muitos séculos mais tarde.
Em Portugal, o Castelo de Tomar, fundado por Gualdim Pais, foi um dos principais centros da Ordem do Templo. Serviu como fortaleza e sede administrativa, desempenhando funções de gestão de recursos e administração de propriedades da ordem. Embora a ordem protegesse peregrinos que viajavam pelo país, especialmente rumo a Santiago de Compostela, não há registos de que oferecesse serviços financeiros formais, como depósitos ou transferências de fundos, aos viajantes. O mesmo se aplica à Comenda de Braga, igualmente do século XII.
Porém, a influência dos Templários não se limitou a Jerusalém, França ou Inglaterra. Pelo seu poder e rede de comendas, também deixaram marcas em lugares inesperados, incluindo… a Irlanda.
Como é que vieram parar à Ilha?
Pois… Tanto quanto se sabe, eles não chegaram à ilha como parte das Cruzadas — a Irlanda não era destino de peregrinação para Jerusalém —, mas sim como parte da rede de comendas e propriedades que a ordem estabeleceu em territórios cristãos aliados ou sob influência dos reis normandos. Receberam terras e privilégios de nobres locais, muitas vezes como recompensa por serviços militares ou lealdade à coroa. Nessas terras, estabeleceram comendas que funcionavam como centros administrativos, agrícolas e defensivos, gerindo propriedades e rendas para sustentar a ordem e manter a sua presença na ilha.
Darei alguns exemplos para vos aguçar a curiosidade…
Comecemos por Dublin, onde a presença templária foi particularmente significativa.
Em Clontarf, nos arredores de Dublin, a ligação aos Templários remonta a 1172, quando o rei Henrique II de Inglaterra concedeu as terras à ordem. Ali, os cavaleiros construíram um castelo e estabeleceram uma pequena comunidade, assegurando também a presença de um sacerdote para servir a população local. Após a supressão da Ordem do Templo entre 1307 e 1312, as suas propriedades, incluindo Clontarf, passaram para os Hospitalários de S. João de Jerusalém — uma ordem originalmente dedicada ao cuidado de peregrinos na Terra Santa, que mais tarde se tornou também militar. Estes continuaram a administrar as terras e o preceptório (sede da Ordem) até à dissolução dos mosteiros em 1542, quando as propriedades foram entregues à Coroa inglesa. O último prior dos Hospitalários em Clontarf, Sir John Rawson, foi recompensado pela sua lealdade e criado Visconde de Clontarf em 1541 — um título que marcaria o fim da presença monástica e militar na zona, mas não a memória templária que ainda ecoa no nome do lugar.
A extensa pesquisa de David McIlreavy, fundador do Medieval Bray Project, documenta a presença dos Templários em Ballyman — nos arredores de Bray, condado de Wicklow — desde meados do século XIII até à dissolução da ordem em 1312. Evidências arqueológicas e documentos históricos indicam que o local — possivelmente onde hoje se ergue a Casa Ballyman — acolhia uma mansão dos Cavaleiros e funcionava como um centro administrativo, agrícola e defensivo. Ali, os Templários geriam propriedades e rendas, asseguravam a manutenção da igreja e supervisionavam sepultamentos locais, integrando Ballyman numa rede estratégica de comendas que reforçava a presença da ordem na Irlanda e facilitava a ligação com outras propriedades europeias.
Também em Wicklow, a ligação dos Templários a Dunganstown remonta ao período entre 1172 e 1177, quando receberam terras da capelania do conde Strongbow. A ordem manteve o controlo destas propriedades durante quase três séculos, até à sua supressão no início do século XIV, altura em que os bens foram transferidos para os Hospitalários. O local original da comenda é actualmente ocupado pela igreja de Dunganstown, erguida séculos mais tarde pela família Hoey, que também construiu um castelo nas proximidades.
Embora os vestígios físicos estejam hoje subterrados, a referência histórica à antiga comenda encontra-se documentada.
No Condado de Tipperary, os Cavaleiros Templários também deixaram marcas significativas. Em Thurles, estabeleceu-se uma preceptoria no século XIII, ligada a um castelo que funcionava como base de operações, gestão de terras e organização local. Em Toomevara, os templários estavam associados à igreja e à administração de propriedades, deixando registos de sepulturas e esculturas medievais ligadas à ordem. Clonoulty foi outro ponto estratégico: a preceptoria ali funcionava como centro de arrecadação de recursos e supervisão das atividades agrícolas, mantendo a ordem integrada numa rede de propriedades que se estendia por toda a Irlanda.
Como é costume, muitos vestígios físicos desapareceram, mas os documentos históricos confirmam que Tipperary foi, sem dúvida, um dos territórios onde os templários consolidaram o seu poder e a sua rede de comendas.
E, enfim, após muita pesquisa, lá encontrei algo palpável…
Em Cork, deixaram marcas significativas: Mourne Abbey, construída por volta de 1199, onde os Templários estabeleceram uma preceptoria que servia como centro administrativo e defensivo, protegida por uma muralha com torres fortificadas (algumas fontes indicam duas, outras até três). Após a sua dissolução em 1312, a propriedade foi transferida para os Hospitalários de São João de Jerusalém.
Em Youghal, Rincrew Abbey, fundada pelos Templários no final do século XII, também serviu como preceptoria. Localizada numa colina com vista para o rio Blackwater, as ruínas da abadia ainda podem ser vistas, embora o acesso seja restrito.
Além disso, em Kanturk, vestígios arqueológicos sugerem presença templária, incluindo restos de cavalos possivelmente ligados à ordem.
Hoje, os Templários da Irlanda pertencem mais à pedra e ao silêncio do que às cruzadas e aos mitos — mas é precisamente aí que reside a força da sua memória.
Os exemplos repetem-se em muitos outros condados, mas todos com a mesma certeza: aquilo que resta, hoje, dos Templários na Irlanda são rastos dispersos — ruínas, poucas, que resistem ao tempo, documentos que escaparam ao esquecimento e nomes que ainda ecoam nos lugares onde cavaleiros e monges uma vez passaram. Pequenas pistas, quase invisíveis, mas suficientes para perceber que, mesmo longe da Terra Santa, a ordem deixou a sua marca.
Procurou-se o Graal em ruínas, cavernas e manuscritos. Em vão. O verdadeiro enigma dos Templários talvez não esteja no que perderam, mas no que conseguiram preservar: o poder de fazer o mundo continuar à procura.
English version
When one speaks of crusades, knights, and a lost chalice — the Holy Grail — the name of the Templars inevitably arises, wrapped in mystery and contradiction. They were monks and warriors, bankers and martyrs, heroes and heretics — depending on who tells the story. The Templars — or, by their full name, the Poor Fellow-Soldiers of Christ and of the Temple of Solomon — were founded around 1119 in Jerusalem by Hugues de Payens and a small group of knights. The order was created with the declared purpose of protecting Christian pilgrims travelling to the Holy Land after the First Crusade.
Over time, the Templars grew far beyond their original purpose. Blending faith, military discipline, and financial ambition in ways few could have imagined, they became feared and respected warrior-monks. Answerable only to the Pope, they enjoyed considerable autonomy from kings and nobles alike. They wore the famous white mantle marked with a red cross — a symbol of purity and sacrifice — and took vows of poverty, chastity, and obedience. In practice, however, poverty was a personal matter only: the order itself amassed immense wealth and power, receiving donations of land, castles, churches, and money, becoming a political and financial force feared throughout Europe.
Perhaps for that reason, they became masters of administration and finance. Many historians, such as William Goetzmann — who discusses the subject in Money Changes Everything: How Finance Made Civilization Possible — note that the Templars performed remarkably advanced financial functions for their time, including providing loans, collecting fees, and keeping standardized accounting records. They also offered long-distance money transfer services: pilgrims could deposit funds at one Templar house and withdraw them from another using letters of credit, reducing risks and ensuring safer travel — not unlike modern ATM withdrawals. It’s easy to see why they’re often regarded as forerunners of the modern banking system.
Places such as Temple Church in London — the most famous — and the Enclos du Temple in Paris were used for these kinds of financial operations, anticipating practices that would only become common many centuries later.
In Portugal, the Castle of Tomar, founded by Gualdim Pais, was one of the main centres of the Order of the Temple. It served as both a fortress and an administrative headquarters, managing the order’s resources and properties. Although the order protected pilgrims travelling through the country, especially those bound for Santiago de Compostela, there are no records indicating that it offered formal financial services, such as deposits or fund transfers, to travellers. The same applies to the Commandery of Braga, also dating from the 12th century.
However, the influence of the Templars was not limited to Jerusalem, France, or England. Through their power and network of commanderies, they also left their mark in unexpected places — including Ireland.
How did they end up on the island?
Well… as far as we know, they didn’t arrive as part of the Crusades — Ireland was not a destination for pilgrims on their way to Jerusalem — but rather as part of the network of preceptories — or commanderies, as they were also known — the order established across Christian territories allied with, or under the influence of, Norman kings. They received land and privileges from local nobles, often as rewards for military service or loyalty to the Crown. On these lands, they founded centres that served administrative, agricultural, and defensive purposes, managing properties and revenues to sustain the order and maintain its presence on the island.
Let me give you a few examples to whet your curiosity…
We can start with Dublin, where the Templar presence was particularly significant. In Clontarf, on the outskirts of the city, the connection to the Templars dates back to 1172, when King Henry II of England granted the lands to the order. There, the knights built a castle and established a small community, also ensuring the presence of a priest to serve the local population. After the suppression of the Order of the Temple between 1307 and 1312, their properties, including Clontarf, passed to the Knights Hospitaller of St. John of Jerusalem — an order originally dedicated to caring for pilgrims in the Holy Land, which later also became a military force. They continued to manage the lands and the preceptory until the dissolution of monasteries in 1542, when the properties were transferred to the English Crown. The last prior of the Hospitallers in Clontarf, Sir John Rawson, was rewarded for his loyalty and created Viscount of Clontarf in 1541 — a title marking the end of monastic and military presence in the area, but not the memory of the Templars, which still echoes in the place name.
Extensive research by David McIlreavy, founder of the Medieval Bray Project, documents the Templar presence in Ballyman — on the outskirts of Bray, County Wicklow — from the mid-13th century until the order’s dissolution in 1312. Archaeological evidence and historical documents indicate that the site — possibly where Ballyman House stands today — housed a knights’ manor and functioned as an administrative, agricultural, and defensive centre. There, the Templars managed estates and revenues, oversaw the maintenance of the church, and supervised local burials, integrating Ballyman into a strategic network of preceptories that reinforced the order’s presence in Ireland and facilitated connections with other European properties.
Also in Wicklow, the Templars’ connection to Dunganstown dates back to the period between 1172 and 1177, when they received lands from the chapelry of Count Strongbow. The order maintained control of these properties for nearly three centuries, until their suppression in the early 14th century, at which point the estates were transferred to the Hospitallers. The original site of the preceptory is now occupied by the church of Dunganstown, built centuries later by the Hoey family, who also constructed a nearby castle. Although the physical remains are now buried, historical records preserve the reference to the former Templar commandery.
In County Tipperary, the Knights Templar also left a significant mark. In Thurles, a preceptory was established in the 13th century, linked to a castle that served as a base of operations, land management, and local organization. In Toomevara, the Templars were associated with the church and property administration, leaving records of burials and medieval sculptures connected to the order. Clonoulty was another strategic point: the preceptory there functioned as a centre for resource collection and supervision of agricultural activities, keeping the order integrated into a network of properties across Ireland. As usual, many physical traces have disappeared, but historical documents confirm that Tipperary was undoubtedly one of the territories where the Templars consolidated their power and network of preceptories.
And finally, after much research, I found something tangible…
In Cork, they left significant marks: Mourne Abbey, built around 1199, where the Templars established a preceptory that served as both an administrative and defensive centre, protected by a walled enclosure with fortified towers (some sources mention two, others up to three). After their dissolution in 1312, the property was transferred to the Knights Hospitaller of St. John of Jerusalem.
In Youghal, Rincrew Abbey, founded by the Templars at the end of the 12th century, also served as a preceptory. Located on a hill overlooking the Blackwater River, the abbey’s ruins are still visible today, although access is restricted.
Additionally, in Kanturk, archaeological evidence suggests Templar presence, including horse remains possibly linked to the order.
Today, the Templars in Ireland belong more to stone and silence than to crusades and myths — yet it is precisely there that the strength of their memory lies.
Similar examples repeat across many other counties, but with the same certainty: what remains of the Templars in Ireland today are scattered traces — ruins, few in number, that have resisted the passage of time; documents that escaped oblivion; and place names that still echo where knights and monks once walked. Small clues, almost invisible, but enough to understand that even far from the Holy Land, the order left its mark.
The Holy Grail was sought in ruins, caves, and manuscripts. In vain. Perhaps the true enigma of the Templars lies not in what they lost, but in what they managed to preserve: the power to make the world keep searching.



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